A Dor e o Isolamento Social

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Publicado em:
2 Abril, 2020

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A Dor e o Isolamento Social

A dor

Coronavírus, não é? Tomou conta das nossas vidas. Não quero cansá-lo ainda mais com o tema, mas a verdade é que os dias que vivemos atualmente podem estar a ter uma influência ainda maior na sua vida do que parece. Como? Vejamos: está em quarentena ou em isolamento social e até conhece alguém com coronavírus, um familiar ou um amigo talvez. Quantas vezes deu por si a ter dores de garganta estes dias? Ou a tossir? Ou até mesmo aquela dor cervical ou lombar que já não tinha há uns meses, voltou?

Pois é, a neurofisiologia da dor pode explicar isto. 1

A explicação da Neurofisiologia

Antes de mais, neste artigo não falamos de sinais e sintomas persistentes e/ou que não melhoram, pelo que se tiver algum dos sintomas descritos pela DGS como correspondentes ao novo coronavírus persistentemente, deve isolar-se e contactar alguém competente, nomeadamente da linha Saúde 24. Mas e se a dor vem e vai, a tosse vai e vem? Então fique a ler.

Sempre existiu dor, nisso estamos de acordo: desde o início dos tempos, desde que nascemos até que morremos, mas será que interpretamos a dor todos da mesma forma? A resposta é não. O que antes era apenas uma “coisa má” e simples, um resultado de alguma coisa que nos acontece de mal (seja doença, um acontecimento ou um simples toque numa superfície quente, em que imediatamente retiramos a mão), sabe-se que hoje é muito mais que isso. Os modelos científicos que explicam a dor nas neurociências, a sua neurofisiologia e até mesmo a sua definição per se, foram ficando cada vez mais complexos com o passar dos anos. 2

Imagine o seguinte: uma criança está a correr sozinha no pátio de sua casa, cai e chora vs. a mesma criança que cai no mesmo pátio, a ir ter com o avô, não chora. Porquê? Para você que vê futebol, já viu alguma lesão em direto que tenha pensado “ui, que dor”? Se estiver com dor de cabeça no escritório, não consegue trabalhar eficazmente, mas se estiver com a mesma dor de cabeça numa floresta com um urso atrás de si, corre de imediato. Já pensou nisso?

A interpretação do cérebro

Eis o que acontece: a sensação de dor é da responsabilidade do seu cérebro, é uma informação que é interpretada pelo seu cérebro. O Frankenstein (sem cérebro) não teria dor, nem teria mais uma quantidade de coisas, porque é nesse mesmo cérebro que se processam muitas mais informações: movimento, sensibilidade tátil, de quente-frio, humor, emoções, crenças, memórias e necessidades básicas como a fome, por exemplo.1 Se a criança acima descrita estiver sozinha e cair, sente-se provavelmente desprotegida, chora por ajuda. Se a criança cai a caminho de ver o avô, que gosta tanto, o objetivo (e a felicidade associada) de ver o avô ultrapassa isso: cai e levanta-se de imediato. Assim como a dor de cabeça vs. urso: se o seu cérebro sentir que está em risco, a dor de cabeça passa e a prioridade passa a ser a sua vida, corre.

O estado de alerta do nosso cérebro

Em dias normais e em pessoas saudáveis, se tocarmos com a mão numa superfície quente, o cérebro interpreta esse estímulo como sendo perigoso, retiramos a mão e está tudo bem: essa dor protege-nos, é boa, diz-nos que alguma coisa não está bem e obriga-nos a reagir. Nos dias de hoje, é como se tudo o que tocássemos, para todo o lado que vamos, fosse uma superfície quente. O cérebro está “hiperreativo”, sente-se sempre em perigo e obriga o corpo a reagir. Tudo é coronavírus, tudo é tosse, tudo é dor de garganta, sente-se sempre em alerta, o filho está cansado, está parado, está constantemente a medir-lhe a temperatura. Sem se dar conta, você tosse, dói-lhe a garganta, você tem dor cervical. 3

A interpretação da ameaça

“Então e o meu pai/mãe/avô? Não compreende o isolamento e ainda vai às compras mais vezes do que é preciso!”

Certo. A interpretação que o seu familiar estará a fazer do coronavírus é a oposta. Pergunte-lhe. “Ora isto é só uma gripe, eu já fui ao Ultramar, aí é que era preciso estado de emergência e no entanto aqui estou eu, não vou mudar a minha vida por isto.” Cada um interpreta uma ameaça conforme o cérebro que tem (e deixe-me relembrá-lo que o cérebro interpreta muito mais que dor, como as memórias e as crenças, já dito acima).

Re-treinar o cérebro

Deixe-me já descansá-lo/a. Tudo isto é normal e tem “cura”. O segredo é arranjar o ponto médio entre os dois extremos acima e re-treinar o cérebro: ocupe-o, distraia-o da dor, baixe a sua “hiperreatividade” para o nível habitual – e sim, eu sei que é cada vez mais difícil. Experimente fazer atividades que já não faz há muito tempo (em casa, claro): leia um livro, faça exercício, ligue àquele amigo com quem já não fala há anos, brinque com os seus filhos, faça aquela limpeza drástica à tralha de casa, à roupa que não usa, faça aquela receita que a sua mãe tem naquele livro, com os seus filhos (e mostre-lhe, faça videochamada). É importante estar informado, mas não esteja constantemente a ler notícias, saiba filtrar o que é verdade e mentira e peça àquele amigo que lhe envia as notícias da desgraça para ler este texto, a ver se muda alguma coisa. Se a sua dor passou no fim do dia, parabéns. É todo seu o mérito, não meu. Se não passou, não tenha vergonha de pedir ajuda: tente falar disto com um profissional de saúde da sua confiança. Ele terá a melhor solução para si e saberá reencaminhar.

Vamos acreditar que tudo isto vai passar e que daqui a nada estaremos todos na esplanada, em jantares, naquele concerto que tem o bilhete guardado, naquela viagem. Quanto mais depressa nos protegermos, mais depressa o pesadelo acaba.

Autora

Ana Beatriz Matias, Fisioterapeuta (C-048161071) no CMM- Aveiro: ERS Nº E124106 | Lic. Func.: 8894/2014 | Tlf: 234021610

Bibliografia e Referências Bibliográficas:

1.Butler D, Harman K. Explain Pain. Vol 58.; 2006. doi:10.2310/6640.2006.00036

2.Heerkens RJ, Köke AJ, Lötters FJ, Smeets RJ. Motor imagery performance and tactile acuity in patients with complaints of arms, neck and shoulder. Pain Manag. 2018;8(4):277-286. doi:10.2217/pmt-2017-0070

3.Louw A, Zimney K, Puentedura EJ, Diener I. The Efficacy of Pain Neuroscience Education on Musculoskeletal Pain: A Systematic Review of the Literature. Physiother Theory Pract. 2016;3985(September):1-24. doi:10.1080/09593985.2016.1194646