As consequências do isolamento social no grupo de maior risco, os nossos idosos.

Crónica de reflexão sobre o COVID-19: as consequências do isolamento social no grupo de maior risco, os nossos idosos.

O ano de 2020, que tudo indicava que fosse um ano próspero, tornou-se uma calamidade global devido ao surgimento desta pandemia. Para conter a doença os países fecharam fronteiras, fecharam indústrias e comércios, deixando apenas os sectores vitais para a nossa sobrevivência em funcionamento.

A pandemia

Vamos definir uma pandemia, para tal têm de se verificar estes três pressupostos: a causa que provoca a nova doença, o grau de proliferação elevado e, por último, o facto de não haver cura conhecida. Esta pandemia em concreto teve origem na China, tendo sido confirmada oficialmente no dia 31 de Dezembro de 2019 no estado de Wuhan, com o reporte inicial de 27 casos graves com uma pneumonia de origem desconhecida. Rapidamente esta nova gripe chegou à Europa de forma silenciosa, devido à informação insuficiente sobre o vírus até então. A sua grande capacidade de proliferação fez com que fosse necessária uma ação imediata para a sua contenção, por parte das várias entidades de saúde pública. Como vivemos em sociedades globalizadas com grande conetividade entre elas, o vírus acabou por se espalhar pelo resto do mundo devido a uma postura tardia da China em reagir1.

A pandemia em Portugal

Falando agora de Portugal, que é a nossa realidade, seguimos as orientações da DGS, que influenciaram as entidade competentes a reagir atempadamente ao descontrole da doença, culminando no decreto do estado de emergência. Apesar de termos tido alguns maus exemplos, de forma geral, os portugueses e as suas empresas mostraram grande responsabilidade cívica na prevenção da doença2.

Sendo o grupo CMM da área de prestação de serviços e cuidados de saúde temos um risco acrescido, sendo necessário, por isso, implementar numa fase inicial as seguintes medidas: aumento do distanciamento social e reforço da higienização das mãos de todos, bem como das áreas comuns. No entanto, devido ao perigo de contágio iminente, só essas medidas acabaram por se revelar insuficientes, tendo o Grupo tomado a decisão de fechar todas as clínicas como forma preventiva de proteção dos seu colaboradores e utentes.

A preocupação com os idosos

Um dos grandes focos de preocupação são os idosos, faixa mais vulnerável neste contexto. No meu dia-a-dia, prestava serviços como auxiliar de fisioterapia a um número elevado de idosos e, por isso, percebo bem quais as vulnerabilidades que estão inerentes a este segmento da nossa população. Para as perceber é necessário falar sobre envelhecimento.

O envelhecimento, tendo uma componente biológica, é comum a todos os indivíduos, neste sentido: os organismos ao longo dos anos vão perdendo capacidade celular e tecidular, existindo a possibilidade de desenvolver doenças degenerativas ao longo do tempo, tornando os idosos menos capazes e eficientes em lidar às modificações do meio ambiente, devido à perda de função dos órgãos dos vários sistemas de funcionamento do corpo humano. Essas vulnerabilidades podem ser diferentes para cada indivíduo, tais como doenças pré-existentes, patologias de foro cardíaco, pulmonar e diabetes, que aumentam o risco de falência do organismo face a este vírus. Podemos assim afirmar que a idade biológica pode não corresponder à idade cronológica, podendo cada pessoa envelhecer assim a um ritmo diferente3 .

Os efeitos do envelhecimento

Para contrariar os efeitos negativos do envelhecimento, é importante vê-lo como uma consequência natural e mitigar fatores de risco, como por exemplo: uma alimentação pouco equilibrada e pobre em nutrientes, sedentarismo, obesidade, tabagismo, excesso de stress, poucas atividades de lazer, falta de estímulos cognitivos, baixa qualidade do sono e inexistência de uma boa rede social de apoio (socialização e apoio familiar). A situação de isolamento prolongado, fruto da quarentena que vivemos, causa nos idosos um maior desgaste4 . Não devemos, por isso, comprometer a saúde
mental5 destes, em prol da obtenção da saúde física a todo o custo e é por isso importante haver ações promotoras de qualidade de vida, como o apoio emocional destes nesta fase, para evitar o agravamento dos problemas evidenciados anteriormente.

O papel da sociedade

Posto esta explicação sobre o envelhecimento, podemos entender melhor o
grande medo dos profissionais de saúde, que trabalham diretamente com esta faixa etária da população. Infelizmente, existe um número significativo de contaminados em vários lares do país, o que aumenta as probabilidades do crescimento da taxa de mortalidade. Pelo que sabemos, esta não é uma gripe comum, pois é ser caracterizada pela manifestação de sintomas mais fortes e pela forma silenciosa como o vírus se infiltra no organismo. Assim, pode a pessoa infetada não manifestar sintomas durante muitos dias e com isto cresce substancialmente a dificuldade em combate-lo. A contenção e o distanciamento físico são assim fundamentais, bem como a racionalização dos recursos de forma inteligente, de modo a aliviar a pressão humana e materiais existentes.

Sendo o Estado o nosso defensor através de pilares como a saúde, segurança, educação e políticas sociais, é importante que cada um esteja saudável para termos uma sociedade segura e saudável. Partindo disto, uma nota especial no tema da educação: não basta apenas formar bons profissionais em termos técnicos, temos também de formar pessoas com responsabilidade cívica, pois todos somos responsáveis pelo amanhã. Para salvar o mundo, é preciso haver exemplos altruístas, atos de gentileza e bondade, pois pequenos gestos podem fazer a diferença, tais como evitar saídas de casa não essenciais no contexto que ainda vivemos.

Por fim, quero agradecer a todos os profissionais que estão no terreno, por nos ajudarem a salvar, proteger e a fornecer todos os bens essenciais que precisamos, bem como aos que estão na luta pela cura pela tão desejável vacina.


“Só existem dois dias do ano em que tu não podes fazer nada: um chama-se ontem e outro amanhã”.

Autora

Gabriela Picado, auxiliar de saúde no CMM – Aveiro: ERS Nº E124106 | Lic. Func.: 8894/2014 | Tlf: 234021610

Bibliografia e Referências Bibliográficas

1. www.rtp.pt. [Online] 12 de 03 de 2020. https://www.rtp.pt/noticias/mundo/coronavirus-oque-e-e-como-comecou_i1203294.

2. Moreira, Sandra e Nogueira, José Rocha . [Online] 28 de 04 de 2020. https://covid19.minsaude.pt/wp-content/uploads/2020/04/Manual_SO_Empresas-2a.pdf.

3. Martins Correia, João Francisco. Introdução à Gerontologia. Lisboa : Graforim, Artes Gráficas, Lda., 2006.

4. https://expresso.pt/. [Online] https://amp.expresso.pt/coronavirus/2020-04-15-Covid-19.-
Confinamento-prolongado-dos-idosos–Especialista-diz-que-viver-isolado-propicia-outro-tipode- riscos.

5. https://www.sns24.gov.pt/. [Online] https://www.sns24.gov.pt/guia/a-solidao-e-oisolamento-
social/.

6. Lama, Dalai. [Online] https://citacoes.in/citacoes/611483-dalai-lama-so-existem-dois-diasno-
ano-em-que-voce-nao-pode-f/.