Capsulite Adesiva/Ombro Congelado (Frozen Shoulder)

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Publicado em:
9 Fevereiro, 2021

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Como se define a Capsulite Adesiva?

A capsulite adesiva, também conhecida como ombro congelado (Frozen shoulder), é definida como: “condição de etiologia idiopática (causa desconhecida), caracterizada por uma restrição significativa das amplitudes articulares ativas e passivas, que ocorre na ausência de um diagnóstico concreto de patologia na articulação do ombro”.(1,2)

Apresentação Clínica

Os utentes que apresentem esta condição normalmente têm como sintomas: rigidez, dor intensa (geralmente pior no período noturno) e perda quase completa de rotação externa ativa e passiva do ombro. (1) Esta resulta do espessamento e encurtamento da cápsula articular (porção superior e anterior) com a presença de fibrose e períodos de inflamação articular. (3)

Qual a sua Prevalência?

A taxa de prevalência da capsulite adesiva é de 2% a 5% e é predominante no género feminino. (1,2) Ocorre sobretudo entre os 40 e os 60 anos. (1) Existe o risco de incidência bilateral (6% a 17% dos utentes desenvolve a condição no ombro contralateral), no entanto a incidência bilateral em simultâneo é muito raro, assim como a recorrência no mesmo ombro. (5) A incidência desta condição tem sido tendencialmente crescente associado a doenças sistémicas (Diabete Mellitus), fatores intrínsecos e extrínsecos [p.e acidente vascular cerebral (AVC)] à articulação, e à adoção de estilos de vida que as desencadeiem. (2)

Qual é a Etiologia da Capsulite Adesiva?

A capsulite adesiva primária apresenta geralmente um início idiopático (ocorre quando não há uma causa exógena ou condição preexistente). (1,5) A capsulite adesiva secundária resulta de causas conhecidas, fator predisponentes ou evento cirúrgico. Existem vários fatores predisponentes, nomeadamente, pós-cirúrgico, pós-AVC e pós lesão. (6,7) Deste modo, a capsulite adesiva secundária pode subdividir-se em três categorias:

  • Sistémica (Diabete Mellitus e outras condições metabólicas); (1,5,6)
  • Fatores extrínsecos (doença cardiopulmonar, AVC, fraturas do úmero, doença de Parkinson); (6,7)
  • Fatores intrínsecos (patologias da Coifa dos Rotadores, tendinopatia da longa porção do bicípite, tendinopatia calcificada, artrite da articulação acromioclavicular). (6,7)
Como é diagnosticada?

Não há um teste Gold Standard para diagnosticar a capsulite adesiva. O diagnóstico da capsulite adesiva ou outras potenciais patologias do ombro deve ser baseado em:

  • Exame clínico, incluindo antecedentes pessoais do utente, história clínica atual e distribuição e severidade da dor; (5)
  • Exclusão de outras patologias; (5)
  • Exames complementares de diagnóstico (Raio-X, Ecografia, RMN) da articulação glenoumeral. (5)
Classificação

A capsulite adesiva pode ser dividida em três fases:

O que se pode fazer na Prática Clínica?

A avaliação médica (Fisiatra, Ortopedista, Reumatologista, entre outros) é importante para excluir outras etiologias, através da anamnese, exame objetivo e exames complementares de diagnóstico (imagem ou laboratoriais). (5)

A Fisioterapia é o tratamento de primeira linha, nos primeiros 6 meses, para muitos dos utentes com Capsulite Adesiva.(1) O tratamento definitivo desta patologia ainda não é consensual, embora várias intervenções tenham sido estudadas.

1.Educação

Esta é a fase mais inicial da resolução da Capsulite Adesiva e deve ser realizada pelo profissional de saúde. A explicação da história natural da patologia é essencial para ajudar a reduzir a frustração e estimular a adesão dos utentes. É importante reforçar que, ainda que não seja impossível, a recuperação total das amplitudes articulares na sua totalidade é difícil. Importa ainda referir as três fases da condição e apresentações clínicas, bem como os procedimentos que iremos realizar para os reverter.

2. Fisioterapia

A intervenção da Fisioterapia na Capsulite Adesiva divide-se em três fases, tal como a apresentação dos sintomas, devendo sempre adaptar-se a cada utente, cumprindo os conceitos de “individualidade e especificidade”.

Tem vindo a ser estudado, ao longo dos anos, que as técnicas mais eficientes nos utentes com Capsulite Adesiva são a combinação da mobilização articular, exercícios e reeducação da biomecânica articular (movimento “normal” do ombro). (5,9) Porém, a Facilitação Neuromuscular Propriocetiva (PNF) é muito eficaz na redução da dor, aumento das amplitudes articulares, melhoria da função e redução da incapacidade. (10) A fisioterapia pode ainda atuar em complementaridade com a administração de anti-inflamatórios não esteroides, glucocorticoides via oral ou por meio de injeções intra-articulares. (1)

2.1. Freezing

O foco principal durante esta fase é o alívio de dor, a diminuição da inflamação e a exclusão de outras causas potenciais de dor no ombro, além da Capsulite Adesiva. Deste modo, todas as atividades que causem dor devem ser evitadas. (1,9)

O utente nesta fase beneficia com mobilização articular passiva suave (livre de dor), alongamento de curta duração (1 a 6 segundos), libertação miofascial e utilização de calor húmido. (1,5)

Ainda nesta fase, podem ser realizados exercícios de baixa intensidade para o alívio de dor, nomeadamente: exercícios pendulares; exercícios com bastão e movimentos ativos-assistidos. (5) Nesta fase inicial é de considerar a elevada importância dos exercícios isométricos (realização de força sem movimento) para fortalecimento dos músculos estabilizadores do ombro. (11)

2.2. Fase de Rigidez ou Ombro Congelado (Freeze)

Nesta fase do programa de reabilitação os principais objetivos são: continuar a diminuir a dor, aumentar amplitudes articulares, progredir no fortalecimento muscular e facilitar o controlo neuromuscular. (11)

Os exercícios realizados na primeira fase podem, e devem ser continuados. (1,5) Nesta fase, os exercícios de fortalecimento devem ser adicionados com uma intensidade ligeiramente crescente, mas sempre fora do limiar da dor, conforme o tolerado pelo utente, para manter a força muscular. (1,11) Os exercícios de mobilidade e alongamento, cumprindo com os mesmos padrões que os de fortalecimento, também devem aumentar de intensidade.


2.3. Fase do Degelo ou Descongelamento (Thawing)

Esta fase é caracterizada pelo retorno gradual das amplitudes articulares, no entanto, em conjunto com a força muscular, devem retornar ao normal o mais rápido possível. (1) Deste modo, os exercícios de fortalecimento são importantes, pois o ombro fica consideravelmente enfraquecido após alguns meses de poucos movimentos, conjugados com mais exercícios de mobilidade e alongamentos. (1) Devem ser introduzidos exercícios para correção postural.(1,11,12)

3. Tratamento Fisiátrico

Dentro das opções terapêuticas disponíveis, surge o tratamento fisiátrico clássico. Ele recorre habitualmente a agentes físicos e cinesioterapia, nomeadamente, infiltração intra-articular com corticoesteróides de forma a diminuir o grau de inflamação e proporcionar analgesia; infiltração intra-articular com ácido hialurónico; corticoterapia oral; acupuntura; manipulação sob anestesia; libertação capsular sob anestesia e, mais recentemente, distensão capsular sob controlo imagiológico (fluroscopia ou ecografia). (4)

3.1 Manipulação sob anestesia 

O médico força o movimento do ombro, para libertação de aderências capsulares. Este movimento envolve a rotura passiva da cápsula articular que se encontra inflamada e espessada. É realizada principalmente sob anestesia geral. (2)

3.2 Cirurgia

A Atrólise Artroscópica ou Libertação Capsular artroscópica é o método cirúrgico mais utilizado. Ele pode ser realizado em utentes que não respondem de forma positiva aos tratamentos de fisioterapia num período de 6 meses. (14)

Conclusão

A Capsulite Adesiva é uma condição comum que causa défice de mobilidade significativa e prolongada para os utentes e traz implicações económicas amplas. O tratamento para a Capsulite Adesiva permanece um desafio, havendo necessidade de evidências de alto nível científico para sugerir um método de tratamento em detrimento de outra. No entanto, até ao momento há evidências moderadas para a abordagem conservadora nos estádios iniciais e, em caso de resistência da condição, técnicas mini-invasivas e cirúrgicas. Astécnicas mini-invasivas e cirúrgicas devem ser sempre complementadas por reabilitação para otimizar os resultados obtidos. (12)

Autor

Rui Silva Fisioterapeuta (C-065971078) no CMM-Centro Médico de Alverca: ERS Nº E106065 | Lic. Func.: 10860/2015| Tlf: 219583501

Artigo revisto em parceria com o Dr. Luís Boaventura (OM 48618) , Médico Especialista em Medicina Física e de Reabilitação

Bibliografia e Referências Bibliográficas

1.Chan, H., Pua, P. and How, C., 2017. Physical therapy in the management of frozen shoulder. Singapore Medical Journal, 58(12), pp.685-689.

2.Cho, C., Bae, K. and Kim, D., 2019. Treatment Strategy for Frozen Shoulder. Clinics in Orthopedic Surgery, 11(3), p.249.

3.Whelton, C. and Peach, C., 2017. Review of diabetic frozen shoulder. European Journal of Orthopaedic Surgery & Traumatology, 28(3), pp.363-371.

4.Bryant, M., Gough, A., Selfe, J., Richards, J. and Burgess, E., 2017. The effectiveness of ultrasound guided hydrodistension and physiotherapy in the treatment of frozen shoulder/adhesive capsulitis in primary care: a single centre service evaluation. Shoulder & Elbow, 9(4), pp.292-298.

5.Lewis, J., 2014. Frozen Shoulder Contracture Syndrome – Aetiology, Diagnosis And Management.

6.Walmsley, S., Rivett, D. and Osmotherly, P., 2009. Adhesive Capsulitis: Establishing Consensus on Clinical Identifiers for Stage 1 Using the Delphi Technique. Physical Therapy, 89(9), pp.906-917.

7.Robinson, C., Seah, K., Chee, Y., Hindle, P. and Murray, I., 2012. Frozen shoulder. The Journal of Bone and Joint Surgery. British volume, 94-B(1), pp.1-9.

8.Alsubheen, S., Nazari, G., Bobos, P., MacDermid, J., Overend, T. and Faber, K., 2019. Effectiveness of Nonsurgical Interventions for Managing Adhesive Capsulitis in Patients With Diabetes: A Systematic Review. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation, 100(2), pp.350-365.

9.Jain, T. and Sharma, N., 2014. The effectiveness of physiotherapeutic interventions in treatment of frozen shoulder/adhesive capsulitis: A systematic review. Journal of Back and Musculoskeletal Rehabilitation, 27(3), pp.247-273.

10.Shanker Tedla, J. and Rani Sangadala, D., 2019. Proprioceptive neuromuscular facilitation techniques in adhesive capsulitis: a systematic review and meta-analysis. JMNI, 19(4), pp.482-491.

11.Wilk, K. and Macrina, L., 2014. Nonoperative and Postoperative Rehabilitation for Injuries of the Throwing Shoulder. Sports Medicine and Arthroscopy Review, 22(2), pp.137-150.

12.Date, A. and Rahman, L., 2020. Frozen shoulder: overview of clinical presentation and review of the current evidence base for management strategies. Future Science OA, 6(10), p.FSO647.

13.Tang, H., Wei, W., Yu, T. and Zhao, Y., 2019. Physical Therapy For The Treatment Of Frozen Shoulder.

14.C A Hanchard, N., M. Goodchild, L., Thompson, J., O’Brien, T., Richardson, C., Davison, D., Watson, H., Wragg, M., Mtopo, S. and Scott, M., 2011. Evidence-based clinical guidelines for the diagnosis, assessment and physiotherapy management of contracted (frozen) shoulder: Endorsed by the Chartered Society of Physiotherapy. The Chartered Society of Physiotherapy.

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