Escrita à mão

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Publicado em:
18 Janeiro, 2023

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Escrever à mão é uma atividade complexa do nosso dia-a-dia, que envolve a capacidade de formar letras com tamanho, proporção e espaçamento consistente, de modo a que os outros consigam ler palavras escritas por nós.

Porque é tão importante estimular?

Nos dias de hoje, cada vez mais nos chegam crianças com pobre qualidade na caligrafia por diversas razões, sendo a mais frequente a falta da estimulação essencial ao longo dos primeiros anos de vida, muito pelo facto de vivermos cada vez mais dependentes da tecnologia, fazendo parecer que escrever à mão é cada vez menos necessário.
No entanto, quando os mais pequenos chegam à escola, queremos que comecem logo a desenhar as primeiras letras.

Isto tudo seria mais simples e fácil para os mais pequenos se tivessem um caminho de oportunidades, de estimulação e de tempo para fazer uma boa integração dos estímulos que os rodeiam e maturarem competências tão essenciais para a escrita (e não só).

As competências essenciais

Uma dessas competências essenciais é a perceção visual, sendo ela um processo onde o nosso cérebro procura e organiza informação, dando significado ao que vemos.

Há imensos componentes do processamento visual que trabalham juntos para darem significado ao que vemos, vamos falar um pouco de alguns desses componentes. Existe uma capacidade de coordenar o movimento dos nossos olhos com o movimento das nossas mãos, chamamos de coordenação óculo-manual. Quando as crianças estão a aprender a controlar o lápis para a escrita, elas baseiam-se no que vêem, ou seja, olham para o que a sua mão está a fazer e o que o lápis está a produzir. A capacidade para copiar uma linha, seja ela vertical, horizontal, um círculo, são marcos muito importantes e considerados por nós, Terapeutas, como indicadores de preparação da criança para começar a aprender a escrever. Para isto devemos estimular as atividades motoras grossas até às motoras finas. Por exemplo, devemos incentivar a usar primeiro lápis de cera em formato grande, cilíndrico antes dos típicos lápis de cera.

Há também uma capacidade muito importante chamada figura-fundo, que nos permite encontrar visualmente um objeto escondido no meio de tantos outros. Na escrita manual esta capacidade é necessária quando é preciso fazer uma cópia. Os nossos pequenotes começam a escrever numa linha mas, após olhar para o que têm de copiar do quadro, já não sabem onde devem escrever a próxima letra. Existem pequenas ajudas que podemos trabalhar para melhorar esta dificuldade, como por exemplo dar a informação num papel em vez de escrever no quadro, ou usar uma linha destacada à volta da palavra que queremos que seja copiada ou ainda uma régua a indicar a linha onde está naquele momento a escrever.

Quando queremos classificar objetos ou formas com base na informação visual obtida (a cor, forma, padrão, tamanho ou posição) estamos a usar a discriminação visual. Na escrita, as crianças precisam de estar conscientes das características comuns, bem como diferenças subtis que distinguem letras e palavras. As crianças necessitam de identificar letras bem como seguir a sequência correta das letras de forma a reconhecerem as palavras para a leitura, escrita enquanto soletram. As dificuldades de discriminação visual podem ser identificadas por escrita em espelho ou falta de atenção para o detalhe na formação de letras.

Por exemplo, quando escrevem o “n” sem terminar a linha, pode parecer um “r”. Quando escrevem um “a” com a cauda do fim da letra a passar a linha para cima ou para baixo, pode parecer um “q” ou um “d”. Se for no início da letra, pode parecer um “p” ou um “b”. Se a linha for muito acima ou muito abaixo pode ficar irreconhecível. Pode ainda surgir confusões com o uso de letras maiúsculas e minúsculas. Por isto é tão importante que as crianças sejam capazes primeiro de identificar letras, independentemente de serem maiúsculas ou minúsculas e, só depois, usá-las apropriadamente.

Quando temos dificuldade neste campo pode ser necessário requerer estratégias adicionais para classificar letras, com uma abordagem multissensorial, por exemplo.

Compreensão do contexto

É muito importante também conseguirmos processar a informação de nós em relação ao que o rodeia. Compreender conceitos como alto/baixo, esquerda/direita, em cima/em baixo, entre outros. Dificuldade neste campo pode afetar a formação de letras, pode ainda levar a dificuldades em escrever sob uma linha e no espaçamento adequado entre letras ou palavras. Podem ter dificuldades em virar a página e continuar a escrever do lado esquerdo da folha, no início de cada linha. Crianças com essas dificuldades precisam de atividades motoras grossas e atividades de controlo postural.

Podem ainda beneficiar de copiar padrões de blocos, modelos de LEGO e missangas antes de tentarem copiar padrões no papel. Estratégias para a escola, passa pelo uso de papel especial de escrita com linhas coloridas, colocar uma régua na linha de escrita e o uso de espaçador entre as palavras. Devemos também ser capazes de identificar um objeto, forma, letra, número ou símbolo quando são apresentados de diferentes formas (maior, menor, rodada, virada para baixo, de lado, em itálico, a negrito, tipo de letra e cor diferente).

Quando isso não acontece resulta na dificuldade em perceber erros na formação das letras, uma vez que a criança interpreta como correta a formação da letra realizada. Podem ainda surgir dificuldades na transição da letra imprensa para a letra manuscrita.

As crianças que experienciam dificuldades com a constância da forma podem beneficiar do uso consistente do mesmo tipo de letra na sala de aula. Ensinar letras e palavras usando uma abordagem multissensorial.

A memória

É importante termos a capacidade para recordar e nomear objetos, formas, símbolos ou movimentos na memória a curto prazo. Isto pode afetar a capacidade da criança reconhecer e identificar formas, letras e palavras e lembrar-se de como elas se formam, sem uma pista visual por perto. Por exemplo, a criança pode ser capaz de copiar letras do alfabeto quando tem ao seu lado o alfabeto numa imagem, no entanto, se lhe pedirmos, para escrever as letras do alfabeto sem a pista visual para copiar, pode já não conseguir desenhá-las. As crianças com dificuldades na memória visual beneficiam de jogos com cartões para memorizar e de atividades de escrita com pequenas quantidades de informação.

Por último, a nossa capacidade de se lembrar de uma sequência de objetos, formas, símbolos ou movimentos numa ordem particular. Na escrita, isto pode afetar a formação de letras, com maior frequência de reversões de letras, uma vez que as crianças demonstram dificuldade em recordarem-se da ordem correta para a sequência da formação das letras bem como a posição espacial da próxima linha. Também pode afetar a capacidade da criança em escrever palavras que têm letras similares como “em”, “nem”, “sem”. Crianças com dificuldades de memória visual sequencial beneficiam de jogos simples de memória sequencial usando objetos como blocos e pompons, jogos com letras, números, formas e palavras.

Nunca é tarde para estimular

Isto foi apenas alguns exemplos de muitos aspetos que devemos estar atentos nas nossas crianças, muitas vezes pensamos que o problema é depois que a escola começa, mas ele já vem de trás. Nunca é tarde para estimular ou para, em conjunto, chegarmos às melhores estratégias para os ajudar. Nós, os Terapeutas Ocupacionais, usamos uma variedade de instrumentos de avaliação para identificar estas e outras dificuldades. Se sente que a sua criança está a experienciar dificuldades contacte um Terapeuta Ocupacional para uma avaliação compreensiva e adequada à sua criança.

Autora

Joana Pinho,  Terapeuta Ocupacional (C-049294180) no CMM Murtosa

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