Fisioterapia: a responsabilidade do paciente no seu tratamento

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Publicado em:
6 Fevereiro, 2020

Fisioterapia: a responsabilidade do paciente no seu tratamento

Modelos que analisam variáveis determinantes de saúde referem que, dentro dos fatores modificáveis para a saúde, os cuidados médicos apenas representam 20% do total, sendo que o restante é dividido entre questões económicas (40%), fatores ambientais (10%) e padrões comportamentais (30%) (Hood, Gennuso, Swain, & Catlin, 2016).

A recuperação do paciente no tratamento de fisioterapia

Dentro destas 4 divisões o Fisioterapeuta, à primeira vista, poderá atuar dentro dos comportamentos de saúde numa percentagem muito pequena. Com este panorama, torna-se inconcebível que o profissional de saúde, neste caso o Fisioterapeuta, tenha influência total nas variáveis que condicionam o quadro clínico do paciente. Posto isto, integrar e promover a adesão do paciente no tratamento é algo que deve estar nas prioridades da intervenção (World Health Organization, 2003). Apesar de tudo o que se possa fazer, a recuperação depende tanto ou mais do paciente do que do Fisioterapeuta. Se o paciente não estiver consciente da importância da adesão ao processo terapêutico – entenda-se por adesão terapêutica a forma como os comportamentos do paciente vão de encontro às recomendações do profissional de saúde (World Health Organization, 2003) – os efeitos na sua saúde a longo prazo serão reduzidos (Nicolson, Bennell, Dobson, Ginckel, Holden, & Hinman, 2017). Recorrentemente o paciente deposita a responsabilidade da recuperação no Fisioterapeuta, como se de uma resolução exclusivamente externa se tratasse. Matematicamente é fácil de demonstrar que não é assim tão linear. Cada sessão, idealmente, durará 1h sendo que esta eventualmente se repetirá 5 vezes nessa semana, dando um total de 5h/semana. 5 horas semanais de contacto com o Fisioterapeuta não serão suficientes para a resolução da condição, tendo em conta as 163h semanais em que este contacto não existe.

O papel do Fisioterapeuta

De acordo com a WCPT (Confederação Mundial de Fisioterapia) os Fisioterapeutas além das competências técnicas relacionadas com a avaliação e formulação de hipóteses clínicas em Fisioterapia e desenvolvimento de um plano de intervenção, devem ser capazes de instruir o paciente para a auto-gestão da sua condição. Educar o paciente e consciencializa-lo da influência que determinados padrões comportamentais possam ter na sua recuperação, deve fazer parte do dia a dia do Fisioterapeuta (Bulley, Donaghy, Coppoolse, Bizzini, & van Cingel, 2004).

Intervenções que implementem o empowerment do paciente promovem uma melhor comunicação entre o terapeuta e paciente e consecutivamente ganhos na autoeficácia do paciente (Kennedy A, 2007). Ora se o paciente se torna mais capaz, menor será a probabilidade de a recuperação ser comprometida por fatores externos, não controláveis pelo Fisioterapeuta.

A responsabilidade do Fisioterapeuta e do Paciente

Posto isto, é da responsabilidade do Fisioterapeuta ser capaz de capacitar, instruir e educar, mas  é  também responsabilidade do paciente ser capaz de se comprometer com o tratamento.

Apesar de cada vez mais estarem disponíveis intervenções aparentemente milagrosas, a melhoria da saúde tende a verificar-se apenas com a mudança de comportamentos em vez da inovação médica ou de tratamentos médicos específicos (World Health Organization, 2003) (Schroeder, 2007).

Que a Fisioterapia seja um meio e não um fim.

Autor:

Nuno Teixeira, Fisioterapeuta (CP C-059969075 ) no Centro de Medicina Física e de Reabilitação da Santa Casa da Misericórdia de Gaia (E100367).

Bibliografia e Referências Bibliográficas:

A, J., Katula, Sipe, M., Rejeski, W. J., & Focht, B. C. (2005). Strength Training in Older Adults: An Empowering Intervention. MEDICINE & SCIENCE IN SPORTS & EXERCISE.

Bulley, C., Donaghy, M., Coppoolse, R., Bizzini, M., & van Cingel, R. (2004). Sports Physiotherapy Competencies and Standards. Sports Physiotherapy For All Project.

Hood, C. M., Gennuso, K. P., Swain, G. R., & Catlin, B. B. (2016). County Health Rankings- Relationships Between Determinant Factors and Health Outcomes. American Journal of Preventive Medicine.

Kennedy A, R. D. (2007). The effectiveness and cost of a national lay-led self care support programme for patients with long-term conditions: a pragmatic randomised controlled trial. J Epidemiol Community Health, 254–261.

Nicolson, P. J., Bennell, K. L., Dobson, F. L., Ginckel, A. V., Holden, M. A., & Hinman, R. S. (2017). Interventions to increase adherence to therapeutic exercise in older adults with low back pain and/or hip/knee osteoarthritis: a systematic review and meta-analysis. Br J Sports Med.

Schroeder, S. A. (2007). We Can Do Better — Improving the Health of the American People. The new england journal of medicine.

World Health Organization. (2003). Adherence to longterm therapies: evidence for action. World Health Organization Library.