Frágeis heróis… como sair da pandemia mais forte?

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Publicado em:
26 Janeiro, 2021

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A atual situação em que as sociedades se encontram face ao COVID-19, lança desafios a todos, muitos dos quais inauditos  e que não estávamos preparados para enfrentar. Como qualquer situação que é nova, esta é uma situação geradora de ansiedade, medo e desconfiança, mas pode também ser uma boa oportunidade para desenvolvermos/descobrimos as nossas capacidades psicológicas e quão fortes podemos ser. 

Foram precisos milhões de anos de evolução para a natureza e os seus mecanismos darem origem os Seres humanos atuais; organismos altamente complexos e diferenciados, capazes de ter consciência de si mesmos e do que os rodeia, capazes de ler, escrever, fazer raciocínios lógicos e matemáticos, pensar de forma abstrata, comunicar, produzir arte, entender as leis da Física e do funcionamento do Universo…  atualmente parecem coisas banais e simples, mas não são… basta pensar que foi um projeto que demorou milhões de anos a chegar ao ponto atual e ainda não está concluído!

Foram essas capacidades que nos permitiram evoluir, fazer chegar máquinas a outros planetas, produzir medicamentos, cultura, conforto e saúde… tudo isso é fabuloso, mas a competência mais fabulosa de todas é a que nos permite sobreviver, escapando de situações difíceis e enfrentar obstáculos- a capacidade de adaptação. É essa que nos permite sair mais fortes depois das situações difíceis.

Na nossa vida as adversidades são inevitáveis; existe até quem defenda que as adversidades são essenciais para o crescimento. A maioria de nós vive pelo menos um acontecimento potencialmente traumático durante o ciclo de vida, e neste caso, a situação pandémica que vivemos confronta-nos (a todos sem exceção) com os medos mais profundos e secretos que se escondem por trás das defesas psicológicas, emocionais e comportamentais a que habitualmente recorremos no dia-a-dia.

Nestas situações são inevitáveis as frustrações próprias e por vezes avassaladoras, que nos tornam vulneráveis e frágeis, nos fazem sentir à mercê de algo que não controlamos e despertam velhas angústias e medos.
Como refere o poeta José Vicente Piqueras ″Um homem sozinho no meio da noite, assobia para amansar os monstros que o habitam.″

Perante uma situação destas, como reagir? O que fazer?

A situação atual desafia-nos e o medo coloca-nos desde logo perante uma questão: E agora?

Os desafios que estão neste momento em cima da mesa podem ser agrupados em 4 categorias que, apesar de distintas, se encontram interligadas.

Em primeiro lugar, temos as questões de natureza social; os desafios lançados pelas restrições de contacto com familiares ou amigos, a impossibilidade de fazermos o que gostamos, ou simplesmente o pânico social instalado levantam questões muito próprias e que merecem ser trabalhadas, de forma a que não tenham impactos negativos na saúde e bem-estar.

Em segundo lugar, as questões de Saúde Mental. Como preservar a Saúde Mental, numa altura em que muitos dos nossos hábitos, rotinas e garantias se encontram fortemente condicionados e afetados?

Em terceiro lugar as questões de natureza laboral e financeira; como manter a motivação, a orientação para os objetivos previamente definidos, as rotinas de trabalho, os hábitos e a estabilidade financeira e familiar?

Em quarto lugar, a saúde física; o que fazer para nos manter-mos saudáveis, com hábitos e rotinas equilibradas?

A forma como cada um reage perante as adversidades determina o grau de sucesso, de continuidade e estabilidade psicológica ao longo do tempo. Desta forma, a adaptação positiva a acontecimentos negativos e potencialmente traumáticos é fundamental para a manutenção do equilíbrio em todos os sentidos. É neste contextos dolorosos e difíceis que se têm vindo a aprofundar na Psicologia os estudos sobre aquilo a que se chama Resiliência Humana.

Como referem alguns autores, a necessidade de aprofundar a compreensão das habilidades psicológicas que utilizamos utilizam para enfrentar as dificuldades, tornando-os assim menos vulneráveis às consequências dos acontecimentos potencialmente negativos, tem levado ao desenvolvimento do estudo das variáveis mediadoras e promotoras de respostas positivas a acontecimentos potencialmente limitadores da nossa vida.

O conceito de resiliência começou por ser investigado com crianças que apesar de crescerem em contextos teoricamente desfavoráveis, eram capazes de superar os obstáculos e  de se desenvolverem saudavelmente; quase como se tivessem uma espécie de imunidade ou super-poder.

Apesar do aparente paradoxo, a resiliência é um fenómeno resultante de mecanismos básicos dos sistemas de adaptação do funcionamento humano (Mastens, 2001). Sempre que esses mecanismos se encontram funcionais e equilibrados, o desenvolvimento é robusto, saudável e adaptativo.

Assim sendo, as ameaças mais impactantes e que podem por em causa a estabilidade de cada um, são aquelas dirigidas aos mecanismos de proteção e adaptação individuais. No caso desta Pandemia, as ameaças são à segurança física, económica, social e psicológica (por isso é tão assustadora, ameaçando pôr em causa tudo o que tentamos a todo o custo preservar).

A resiliência não é pois um mecanismo em si mesmo. Refere-se a um conjunto de fenómenos que se pode caracterizar pelos bons resultados, apesar das ameaças ao equilíbrio e à adaptação que possam existir. 

Só poderemos abordar a resiliência se a analisarmos partindo de 2 conceitos fundamentais:

  • Adversidade;
  • Adaptação positiva;

Por adversidade deve-se entender qualquer tipo de stressor ou circunstância de vida percebida como negativa, que possa ser percecionada como uma ameaça. Os stressores podem ser de natureza pessoal (família, acontecimentos de vida, equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, doenças) ou de natureza organizacional ou social (tipo de trabalho, coesão social, aspetos logísticos, ambiente, aspetos diretamente ligados à nossa capacidade de estar em sociedade).

A adaptação positiva refere-se à competência manifesta ou ao sucesso obtido nas tarefas específicas próprias do desenvolvimento ou de determinados contextos. Esta adaptação depende dos fatores de proteção, da vulnerabilidade, e do risco envolvido.

Entendem-se por fatores de proteção aqueles que podem aperfeiçoar, modificar, ou alterar a reação de alguém perante determinado fator ou acontecimento que potencialmente produziriam resultados negativos (Rutter, 1985). Dentre os fatores de proteção destacam-se a personalidade baseada no optimismo, a motivação, a confiança, a concentração e perceção de suporte social. Tornamo-nos mais fortes quando trabalhamos estes fatores de proteção

Em suma, das várias abordagens existentes sobre a resiliência, podemos concluir que a resiliência é um conjunto de fatores que promovem a adaptação dos indivíduos de forma a protegê-los dos resultados negativos associados a determinados eventos exteriores potencialmente ameaçadores.

 A resiliência depende de fatores individuais, familiares e do ambiente sociocultural. Relaciona-se com perfis de personalidade equilibrados e saudáveis psicologicamente, e com pessoas mais flexíveis e capazes de adequar as suas respostas afetivas e físicas às mudanças do meio envolvente.

O que fazer então perante a situação atual?

Quando nos sentimos ameaçados, uns tendem a fugir ou esconder-se, enquanto outros tentam desenvolver formas de enfrentar a situação; Neste sentido, perante a a situação que vivemos, é determinante termos em conta o seguinte:

Linhas de orientação e recomendações gerais relativamente às questões sociais
  • É fundamental manter-se em contacto com as pessoas que valoriza (amigos, colegas de trabalho, familiares), redescobrindo novas formas de contacto social, assegurando assim que se mantém conectado, sem riscos para ninguém. Neste campo as novas tecnologias irão desempenhar um papel fundamental, permitindo manter alguma sensação de normalidade.
  • Sentimo-nos melhor quando nos concentramos no presente e vivemos o dia-a-dia da forma que nos agrada. Nesta época de restrições, desenvolva novas rotinas, novas formas de diversão ou aproveite para fazer aquelas coisas que normalmente não tem tempo.
  • Com o tempo que subitamente todos iremos ter a mais e por vezes nos vai até parecer exagerado, é fundamental encontrar formas de o ocupar que nos satisfaçam e que nos permitam alhear um pouco dos obstáculos atuais. Foque-se no que pode fazer e não no que está impedido de fazer.
Linhas de Orientação e recomendações gerais relativamente à Saúde Mental
  • Esta é uma situação potencialmente geradora de ansiedade, emoções e comportamentos negativos. Manter a sua vida sob controle é por isso essencial.
  • Procure desenvolver outras áreas da sua vida, além das habituais.
  • Comportamentos simples, como por exemplo escrever um diário ou ter um hobby, permitem expressar os sentimentos, sublimar as frustrações e desenvolver competências psicológicas necessárias para enfrentar os desafios.
  • Este é um tempo em que podemos reavaliar os nossos objetivos pessoais, familiares e laborais. Fazer esta reavaliação implica perceber: a) Porque participo em determinadas atividades? b) que significado têm as coisas para mim? c) quando tudo voltar à normalidade o que pretendo fazer? d) como é que a minha vida pessoal se concilia com a profissionalO meu estilo de vida faz-me feliz?
  • Trabalhe apenas com factos. São estes que ajudam a reduzir medos e inseguranças; saber selecionar as notícias, distinguindo aquelas que são verdadeiras, das que são falsas e alarmistas, alivia grande parte da ansiedade e medo próprios desta situação. Fontes de informação fiáveis poderão ser consultadas aqui:

          – https://covid19.min-saude.pt/

           – https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019

  • Evite ler, ver ou ouvir notícias que o deixem ansioso ou perturbado emocionalmente; esta pode ser uma forma de reduzir drasticamente os impactos emocionais negativos desta situação.
  • Não altere os seus hábitos de sono. Se os alterar agora, terá de voltar a reajustá-los quando tudo voltar à normalidade.
  • Procure atividades que o desafiem intelectualmente.
  • Procure manter-se relaxado física e mentalmente. Faça exercício ou simplesmente aproveite o dia-a-dia da forma que lhe dá mais prazer; afinal às vezes até nos queixávamos da falta de tempo para nós!
  • Proteja-se e dê suporte emocional aos amigos e familiares. Desta forma irá sentir-se útil, motivado e com uma maior sensação de controle sobre a situação.
  • Valorize as notícias positivas relativas a pessoas que recuperaram da doença.
  • Caso se sinta incapaz de lidar com a situação procure apoio especializado, junto do médico ou psicólogo. Revelar as suas fragilidades, não o torna mais frágil. Apenas lhe permite trabalhar nessas fragilidades, tornando-se assim mais forte e resiliente.
Linhas de orientação relativas aos aspetos profissionais

Esta é uma situação geradora de sentimentos de ameaça à consistência, continuidade e sucesso profissionais. Importa manter uma atitude positiva e o foco naquilo que o move enquanto pessoa.

  • É fundamental adaptar-se positivamente à situação, procurando aquelas coisas ou pessoas com formas de ser e de estar que o ajudem a colocar este momento em perspetiva e que lhe possam sugerir formas de ultrapassar as dificuldades.
  • Mantenha-se em contacto com os seus colegas de trabalho. O grupo sairá assim reforçado.
  • Existem diferentes fontes de motivação. Procure aquelas que o mantenham orientado para o futuro.
  • Tenha em mente os objetivos que definiu para a sua carreira. Se necessário readapte-os, sem dramatismos ou negatividade. A sua carreira não é o destino final da viagem,  é um projeto em  construção e os constrangimentos atuais não serão permanentes.
  • Foque-se nos fatores que pode controlar. Não pode controlar a duração da Pandemia. Mas pode controlar aquilo que faz, para se manter no domínio da sua vida. Assim, quando a situação normalizar, regressará mais forte e preparado, e tudo terá sido uma oportunidade de crescimento.
  • Mantenha-se atualizado relativamente aos desenvolvimentos profissionais. Lembre-se que quando tudo voltar à normalidade não vai começar do zero. Vai apenas reiniciar a viagem.

A capacidade de transformar os obstáculos e as adversidades em experiências promotoras de aprendizagem e crescimento individual e coletivo é um dos fatores de sucesso a longo prazo e deve ser trabalhada por todos, quer individualmente quer enquanto sociedade.

Esta é uma altura complicada, onde o desconhecido nos confronta com a incerteza, o medo, o desespero e a impotência. Mas se nos focarmos nestes aspetos negativos, estaremos a enfatizar ainda mais as nossas fragilidades e fraquezas; Muitas vezes é nas adversidades que nascem as verdadeiras oportunidades!

Autor

Rolando Andrade,  Psicólogo Clínico (CP O.P.P 4365) nas unidades: CMM – Centro Médico de Aveiro: ERS Nº E124106 | Lic. Func.: 8894/2014; CMM – Centro Clínico FisioEstarreja: ERS E136366 | Lic. Func.: 14233/2017 e CMM-Centro Médico da Murtosa: ERS Nº E100539 | Lic. Func.: 2672/2011.

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