Lesões por Golpe de Chicote (Whiplash)

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Publicado em:
1 Julho, 2020

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Lesões por Golpe de Chicote (Whiplash)

O que é o Síndrome do Chicote?

O Síndrome do Chicote, também conhecido como Whiplash, define- se como uma lesão na qual o pescoço sofre uma hiperextensão forçada, seguida de flexão, decorrente de vários mecanismos, sendo os acidentes de viação o mais habitual.1 Segundo as estatísticas, 15% a 35% dos envolvidos em acidentes sofrem um golpe de chicote.4 Este processo e o impacto por ele causado provocam lesões a nível ósseo e muscular e que levam, mais tarde, a outros problemas / disfunções, descritos na literatura como Whiplash Associated Disorders (WAD).2

Mecanismo de lesão no Golpe de Chicote 3

As queixas habituais da pessoa afetada, numa fase aguda são dor no pescoço e rigidez. Podem entretanto surgir outros sintomas, tais como:3

  • Cefaleias
  • Dores na coluna, ombros e membros superiores
  • Dormência e falta de força nos membros superiores
  • Tonturas, visão turva, vertigens
  • Disfagia (dificuldade em engolir)
  • Cansaço

Para além dos sinais físicos, é importante salientar que as lesões decorrentes do acidente / impacto podem, também, levar a diversas condições psicossociais. Entre as mais descritas verifica-se a depressão, raiva, medo, ansiedade e até distúrbios obsessivo-compulsivos.8

A classificação do Whiplash pelo Quebec Task Force (QTF) inclui cinco categorias 6 (Tabela 1), tendo vindo a ser atualizada ao longo dos anos (Tabela 2).

Tabela 1- Classificação do Whiplash pela Quebec Force (QTF) 6
Tabela 2- Classificação Modificada das lesões de Golpe de Chicote 7
Diagnóstico

O diagnóstico de um Whiplash baseia- se, acima de tudo, num exame físico, no qual se procuram lesões musculares consistentes com a patologia, assim como défices neurológicos, através de testes específicos.5 Pode ser, também, necessário realizar exames complementares de diagnóstico.

O sucesso no tratamento depende de um correto diagnóstico e técnicas terapêuticas bem estruturadas.

Tabela 3- Exemplo de Avaliação Inicial 9
Tabela 4 – Critérios para realização de Raio-X 9

1.Exame Físico 3

Com este exame tenta-se entender se existem diminuição das amplitudes de movimento, características da dor e outros sintomas compatíveis com a patologia. Procuram-se, também, por sinais de espasmos musculares e pontos gatilho.

Existem as “red flags”, que podem ser indicativas de anomalias graves, tais como sinais neurológicos nos membros superiores ou inferiores.

Num exame inicial, procuram-se, igualmente, fatores psicossociais que podem influenciar o processo de recuperação, tais como o défice de concentração e de memória, a fácil irritabilidade e o stress pós – traumático.

2. Diagnóstico por Imagiologia 8

Os principais exames aos quais se recorre são o Raio- X, que permite avaliar lesões osteoarticulares e a mobilidade raquidiana, a Ressonância Magnética (MRN) e Tomografia Computorizada (CT), sendo realizados quando se suspeita de lesões medulares, ligamentares, ou fraturas.

É necessário ter em atenção que, muitas vezes, não é possível identificar uma lesão estrutural. Por outro lado, a RMN e a CT podem não ser concludentes no diagnóstico.

Tratamento e a importância da Fisioterapia

Existem diversos estudos que destacam a importância da Fisioterapia nestas lesões, seja numa fase inicial ou numa situação crónica. 6

1.Fase Aguda / Sub- aguda

Inicialmente, os objetivos na Fisioterapia passam por diminuir as dores e reestabelecer a mobilidade cervical. 8

É recomendada a implementação de terapia manual, técnicas de mobilização passiva (musculares e articulatórias) e eletroterapia. Esta terapêutica poderá ser articulada com outros tratamentos, tais como a Acupunctura. 3

2. Fase Crónica

Nesta fase, mostrou ser eficaz a implementação de um plano multidisciplinar que engloba programas de exercícios, terapia em grupo e Terapia Ocupacional. 8

O Fisioterapeuta deve focar- se no ensino de exercícios de reeducação postural e fortalecimento muscular, permitindo, assim, manter uma boa amplitude de movimento e evitar que qualquer bloqueio, articular ou muscular, continuem a causar dores. 10

O prognóstico

O prognóstico para a reabilitação de uma pessoa que sofreu um Golpe de Chicote é, habitualmente, favorável, desde que adequadamente acompanhado. Perante todo o quadro clínico aqui apresentado é importante salientar que existe uma grande heterogeneidade de aspetos físicos e psicológicos envolvidos. Nesse sentido, entende – se que a avaliação clínica e o programa de reabilitação deverão ser rigorosos e individualizados. Este deverá ser sempre multidisciplinar, abrangendo vários profissionais, mediante as necessidades, tais como o Médico Fisiatra (e eventualmente outra especialidade), o Fisioterapeuta, o Terapeuta Ocupacional, entre outros.

É fundamental que o utente tenha um papel ativo durante os tratamentos e no pós- reabilitação e que siga sempre as recomendações dos profissionais de saúde, mantendo sempre atividades e exercício físico.

Autor

Diogo Monge Fisioterapeuta (C-047398078) no CMV – Centro Médico de Viseu: ERS Nº E101308 | Lic. Func.: 16687/2018.

Artigo revisto em parceria com o Dr. Luís Boaventura (OM 48618) , Médico Especialista em Medicina Física e de Reabilitação

Bibliografia e Referências Bibliográficas

1. Bohman, T., Côté, P., Eleanor Boyle, E., Cassidy, J. D., Linda J Carroll, L. J., Eva Skillgate, E. (2012). Prognosis of patients with whiplash-associated disorders consulting physiotherapy: development of a predictive model for recovery. BMC Musculoskeletal Disorders. 13(264), 1-2.

2. Fernández-de-las-Peñas, C., Fernández-Carnero, J., del Cerro, L. P. Miangolarra-Page, J. C. (2004). Manipulative Treatment vs. Conventional Physiotherapy Treatment in Whiplash Injury: A Randomized Controlled Trial. Journal of Whiplash & Related Disorders. 3 (2), 75.

3. Tameem, A., Kapur, S., Mutagi, H. (2014). Whiplash injury. Continuing Education in Anaesthesia, Critical Care & Pain J. 14 (4), 167 – 180.

4. Sterner, Y., Gerdle, B. (2004). Acute and Chronic Whiplash Disorders – A Review.  Journal of Rehabilitation Medicine. 36, 193–210.

5. Sharma, M., Coppa, N. D., Henderson, F. C. (2005). Whiplash Syndrome – An Overview.   Seminars in Spine Surgery. 17, 49-52.

6. Seferiadis, A., Rosenfeld, M., Gunnarsson, R. (2004). A review of treatment interventions in whiplash-associated disorders. Eur. Spine J. 13, 387–397.

7. Rydevik, B., Szpalski, M., Aebi, M., Gunzburg, R. (2008). Whiplash injuries and associated disorders: new insights into an old problem. Eur. Spine J. 17 (3), 359-S416.

8. Yadla, S., Ratliff, J. K., Harrop, J. S. (2008). Whiplash: diagnosis, treatment, and associated injuries. Curr. Rev. Musculoskelet Medicine 1, 65-68.

9. State Insurance Regulatory Authority. (2014) Guidelines for the management of acute whiplash-associated disorders – for health professionals. Sydney. 3ª Edição.

10. Flanders, K., Feldner, H. (2017). Exercise, Manual Therapy and Postural Re-Education for Uncontrolled Ear Twitching and Related Impairments after Whiplash Injury: A Case Report. The International Journal of Sports Physical Therapy. 12 (5), 848 – 857.

11. Stålnacke, B. (2009). Relationship Between Symptoms and Psychological Factors Five Years After Whiplash Injury. Journal of Rehabilitation Medicine. 41, 353–359.