Lombalgia

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Publicado em:
16 Março, 2020

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A lombalgia e os exames de diagnóstico
O que é a Lombalgia?

A lombalgia, termo técnico usado para nos referirmos às “dores de costas”. É uma das doenças mais prevalentes, mais incapacitantes e das maiores responsáveis pelo absentismo laboral. Se disser que todos os dias observamos doentes com queixas de lombalgia não estou a exagerar. E quando o doente chega à minha consulta, quase sempre, a primeira coisa que faz é estender-me os exames que já realizou ou, se ainda não os tem, perguntar-me se não lhos vou pedir. E a minha resposta é sempre a mesma: “vamos primeiro conversar um pouco e depois já falamos dos seus exames”. 

Exames de diagnóstico

E porquê conversar primeiro e pensar nos exames depois? Por um motivo muito simples: cerca de 85% a 90% dos casos de lombalgia são chamados de inespecíficos, ou seja, não se encontra uma causa exata para a dor. A coluna lombar é uma estrutura complexa onde diversos elementos podem causar estímulos dolorosos, como por exemplo vértebras, discos intervertebrais, articulações, músculos, tendões, ligamentos, raízes nervosas, nervos, medula, etc. Apenas em cerca de 10 a 15% dos quadros de dor lombar se encontra uma causa específica como por exemplo trauma, hérnia discal, tumor, infeção, doença inflamatória ou outra. E é precisamente a história clínica, ou seja, a tal conversa com o doente e a observação posterior, que nos permite perceber se existem ou não sinais de alarme que justifiquem a realização de exames auxiliares de diagnóstico. 

Sinais de alarme da lombalgia

Os sinais de alarme, também designados como red flags, são a existência de traumatismo (que pode ser apenas um pequeno traumatismo em pessoas idosas ou com osteoporose), febre, perda de peso, dor de predomínio noturno que agrava significativamente com o repouso, antecedentes tumorais, toma de medicamentos imunossupressores, uso de drogas endovenosas, primeiro episódio de dor em pessoas muito jovens ou muito idosas, alterações de sensibilidade ou da força muscular dos membros, alterações do funcionamento da bexiga e do intestino ou alterações no exame objetivo que nos façam pensar em défices neurológicos. 

A lombalgia tem uma evolução favorável em cerca de 85% dos casos, desaparecendo num período que pode ir até às 6 semanas. Cerca de 30% dos doentes voltam a ter uma crise no espaço de um ano. Quando a dor permanece por mais de 3 meses é classificada como crónica e geralmente necessita de avaliação por médico especialista nesta área como é o caso do fisiatra, que pode decidir ou não pela realização de exames complementares. A decisão é feita caso a caso, tendo em conta os diversos fatores já enumerados e o contexto psicossocial. 

Exames complementares imagiológicos

A realização de exames complementares imagiológicos pode ser prejudicial ao invés de benéfica (por levar a interpretações erradas) e os exames devem ser interpretados com prudência dado que muitas vezes são encontradas alterações. Porém, pode não existir uma relação causa-efeito com as dores que o doente apresenta, o que pode conduzir mais a confusão do que a esclarecimento diagnóstico. Um exemplo clássico é o do doente que apresenta uma dor lombar que irradia para a região posterior da coxa esquerda, faz uma TAC e esta mostra uma hérnia que se encontra lateralizada para a direita. Neste caso, a hérnia não será a fonte da dor e de nada lhe servirá tratamento dirigido à hérnia ou até uma eventual cirurgia da mesma. Com o avançar da idade, se realizarmos exames complementares da coluna vertebral, vamos encontrar alterações degenerativas e podemos até apresentar hérnias sem que tenhamos qualquer queixa dolorosa. 

É precisamente porque a interpretação dos exames imagiológicos (RX, TAC, Ressonância, etc.) não pode ser dissociada da avaliação do doente e do seu contexto, que a lombalgia requer uma abordagem holística. E é por tudo o que foi exposto que podemos concluir que efetivamente os exames são apenas um complemento do diagnóstico clínico. 

Autora

Inês Campos Médica de Medicina Física e de Reabilitação (OM 46466) no CMM- Aveiro: ERS Nº E124106 | Lic. Func.: 8894/2014 | Tlf: 234021610

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