Mesoterapia

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Publicado em:
6 Agosto, 2020

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História

A Mesoterapia consiste numa técnica médica de introdução de fármacos, desenvolvida em 1952 pelo Dr. Michel Pistor. O próprio define-a como a “injeção de medicamentos em doses muito baixas na pele, o mais perto possível da lesão ou da sua origem, onde se encontra a doença, onde se exprime a dor, com o mínimo de efeitos indesejáveis”.1

A designação “Meso” tem origem no termo Mesus que significa “meio”. Esta definição atribui-se ao local onde a técnica é aplicada (mesoderme) a camada de pele que se encontra entre a epiderme (mais superficial) e a hipoderme (mais profunda, a mais de 13mm de profundidade).1

Existem relatos de técnicas de punção para o tratamento da dor desde 400 a. C.. Nestes tempos, Hipócrates usava folhas de figueira-da-índia (da família dos catos) para aplicar uma técnica de nappage (cobertura) e conta-se que assim tratou com sucesso um pastor da ilha de Cós que sofria de dor no ombro.1

Com o avançar tecnológico, da ciência e equipamentos médicos, as agulhas utilizadas tornaram-se cada vez mais pequenas e a técnica cada vez mais indolor, sendo que atualmente o método de tratamento é relativamente rápido e com poucos efeitos adversos.

Definição

Mesoterapia: aplicação intradérmica de fármacos, na projeção ortogonal da lesão ou da dor com efeito loco-regional1 – na derme reticular (entre 4 e 13mm profundidade).

Mecanismo de ação

A atual evidência científica baseia-se em diversos estudos com radioisótopos, para avaliação da dispersão, distribuição e biodisponibilidade, efetuados desde o início do séc. XX.

Kaplan e Raincourt avaliaram doseamentos de calcitonina e chegaram à conclusão que injeções na mesoderme de medicamentos permitiam a sua permanência mais prolongada que por outras vias.2

Le Coz e DuPont efetuaram biópsias sinoviais por via artroscopia do joelho, após injeção local de AINE. Chegaram à conclusão que após injeções epidérmicas, subcutâneas ou intramusculares as concentrações intra-articulares e periféricas do fármaco eram similares.3

Chegou-se progressivamente à conclusão que a derme funciona como um reservatório cutâneo para as moléculas administradas. A quantidade de fármaco disponível após injeção intradérmica chega a ser de 50% (ao contrário de injeções mais profundas, onde os valores podem ser reduzidos para 16%).4

Outra vantagem da via de administração é a de alguns fármacos terem ação imediata nos locais-alvo (por ex. os anestésicos utilizados no procedimento).5

Indicações para Mesoterapia

As indicações são várias, nomeadamente para o tratamento da dor e da inflamação, mas também em Medicina Estética (a última ultrapassa o âmbito deste artigo, pois o autor não atua nessa área).

Assim sendo, é efetuada Mesoterapia principalmente em:

  • Patologia Osteoarticular Degenerativa;
  • Patologia Osteoarticular Inflamatória;
  • Síndromes dolorosos diversos.

Embora este tratamento possa ser utilizado de forma isolada, em diversas situações é complementado por outras abordagens em MFR / Fisioterapia (a definir pelo Médico que efetua a técnica).

As patologias que tenho tratado mais frequentemente na minha prática clínica são:

  • Tendinopatias do membro superior: coifa dos rotadores e epicondilite;
  • Tendinopatias do membro inferior: “pata de ganso”, rotuliana, “pubalgia”, banda iliotibial, trocanterite;
  • Dor vertebral: cervicalgias, lombalgias, contraturas musculares.

Como em todas as situações clínicas, deverá ser feito o diagnóstico antes de qualquer tratamento. Poderá ser necessária a execução prévia de alguns exames, nomeadamente radiografia, ecografia, TC, RM (ou outros que o Médico Fisiatra considere fundamentais para esclarecimento).

A duração do tratamento depende muito da patologia a tratar, mas o habitual na minha prática é efetuar um conjunto de 4 sessões por área corporal (uma vez por semana) e na consulta final avaliar resultados e eventualmente definir novo plano se existirem mais áreas a tratar ou outras patologias.

Contraindicações

Como já referido, trata-se de uma técnica geralmente bem tolerada visto serem usados fármacos muito comuns (anti-inflamatórios e analgésicos) e agulhas de muito pequenas dimensões. Os mais habituais são: alergia ao fármaco a utilizar; fobia à injeção; lesão ou alteração dermatológica local.

Efeitos secundários

Principalmente devido à picada, mas raros: dor local, eritema ou infeção no local da administração; reações vasovagais ou anafilaxia.

Fármacos

A mistura a utilizar é definida pelo Fisiatra, caso-a-caso, consoante o objetivo é tratamento da dor, anti-inflamatório e/ou relaxante muscular. Os mais comuns são:

  • Anestésicos: lidocaína 1/2%
  • AINE: piroxicam, diclofenac de sódio, cetoprofeno
  • Miorrelaxantes: tiocolquicosido
  • Dispositivos médicos de Colagénio
  • Outros: metilcobalamina, calcitonina sintética de salmão, silício orgânico.
Técnica

A Mesoterapia poderá ser efetuada de 2 formas:

  • Técnica manual (com seringa e agulha de pequenas dimensões) – mais precisa e com doseamento ponto-a-ponto da quantidade e profundidade (o autor faz esta técnica).
  • Técnica automática (com kit e pistola de Mesoterapia) – mais rápida que a técnica manual mas não permite ajustes tão precisos.

Todo o material é estéril e de utilização única.

Durante o procedimento o doente é colocado numa posição cómoda. A área a tratar é previamente desinfetada e poderá ser colocado cloreto de etilo para reduzir a dor. Na área afetada, a cada picada, são colocados os pequenos volumes da mistura de fármacos.

Ensinos ao doente

No dia da injeção não deverá realizar tratamentos na área a tratar com calor, eletroterapia, banho de imersão, piscina ou massagem (por interferência com a absorção dos fármacos).

Após as injeções deverá aplicar gelo local e evitar exposição solar nos 3 dias seguintes.

Avaliação De Resultados

Têm sido usados diversos métodos para avaliar o resultado terapêutico da Mesoterapia, nomeadamente questionários de satisfação do doente, escalas de quantificação da dor (EVA), medições de mobilidade articular (goniómetro) e de força muscular (avaliação manual ou dinamómetros).6

Em países como França e Itália, onde a prática de Mesoterapia é mais comum, já foram elaborados consensos e orientações para o seu uso, isolada ou em associação com outras técnicas de Medicina Física e Reabilitação (MFR).6

Os resultados obtidos ao nível do controlo da dor, são bons e até melhores que os obtidos com a toma oral de medicação, por exemplo, no tratamento da dor lombar.7

Conclusões

A Mesoterapia é uma técnica de Medicina Física e Reabilitação (MFR) útil para o tratamento da dor e inflamação localizada.

Pode ser usada isoladamente ou em complemento com outros tratamentos de Medicina Física e Reabilitação (MFR).

A via de administração intradérmica permite o uso de doses menores de medicamentos, com ação local mais rápida e eficaz.

As sessões de tratamento são curtas e semanais, reduzindo assim o número de deslocações necessárias.

Autor

Jorge Lourenço, Médico Especialista em Medicina Física e de Reabilitação nas Unidades:

Bibliografia e Referências Bibliográficas

1.Mendonça R. et al. Mesoterapia – Lidel. 1ª Edição. 2016.

2.Kaplan A, Raincour. Devernir d’un produit marque injecte par quatre voies differentes. Bulletin SFM 1985; 62.

3.Le Coz J., Dupont J.-Y. _ L’injection en regard du genou par voie mesotherapique donne de bonnes concentrations intra-articularires. Quotidien du Medecin, 1983.

4.Mrejen D. Semeiologie, Pharmacocinetique et profondeur des injections en mèsothérapie. In: Bulletin 5 des communications du 6e Congrès International de Mesothérapie; 1992; Bruxelas, Bélgica. Paris: Société Française de Mésothérapie; 1992.

5.Fine, R. Milano, and B. D. Hare, “The effects of myofascial trigger point injections are naloxone reversible,” Pain, vol. 32, no. 1, pp. 15–20, 1988.

6.Mammucari M, Gatti A, Maggiori S, Bartoletti CA, Sabato AF. Mesotherapy, definition, rationale and clinical role: a consensus report from the italian society of mesotherapy. European Review for Medical and Pharmacological Sciences. 2011;15(6):682–694

7.Costantino C, Marangio E, Coruzzi G. Mesotherapy versus systemic therapy in the treatment of acute low back pain: a randomized trial. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine. 2011


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