O meu filho ainda não lê

Com crianças, é comum na prática clínica do Terapeuta da Fala lidar não só com as dificuldades ao nível da fala, mas também com as dificuldades ao nível da leitura e da escrita. Esta aprendizagem torna-se fonte de angústia para os pais, professores e sobretudo, para as próprias crianças.

Ao contrário da linguagem oral que é uma atividade de aquisição espontânea e natural, esta aprendizagem é um processo complexo que requer um ensino explícito, sistematizado com uma prática frequente e supervisionada(1) e por vezes o processo não tem a facilidade esperada…

De que forma é que o Terapeuta da Fala pode ajudar?

Antes de mais, é importante saber que um desenvolvimento harmonioso da Linguagem é fundamental para o adequado desenvolvimento da Aprendizagem da Leitura e da Escrita, isto é, crianças que iniciam a escola com problemas de Linguagem correm o risco de desenvolver problemas de leitura e consequente mau desempenho escolar.(2)

Assim, aquando a sua entrada para a escola, a criança deverá conseguir exprimir-se com natural facilidade, de forma  explícita e pormenorizada. Deverá apresentar um bom nível de compreensão, falar com correção articulatória, com um vocabulário variado e utilizando já frases complexas.(3)

A par desta riqueza expressiva mais ou menos evidente, a criança deverá apresentar um desenvolvimento adequado ao nível da Consciência Fonológica, habilidade de importância inquestionável no processo de aprendizagem da leitura e da escrita.(4)

Mas o que é a consciência fonológica?

A consciência fonológica é (de uma forma muito simplificada) a capacidade de prestar atenção aos sons da fala sendo essencial para a análise dos sons que constituem as palavras e conseguir relacionar sons e letras.

Um adequado desenvolvimento da consciência fonológica permite:(5)

  • Produzir e detetar rimas;
  • Segmentar frases em palavras;
  • Segmentar palavras em sílabas;
  • Aglutinar sílabas em palavras;
  • Manipular e substituir sílabas em palavras;
  • Suprimir e adicionar sílabas em palavras;
  • Identificar sílabas iguais;
  • Identificar sons finais iguais;
  • Identificar sons iniciais iguais;
  • Associar sons a letras;

Para escrever corretamente, a criança tem de colocar em prática e ao mesmo tempo seguintes das aquisições:(6)

  • Discriminar os fonemas (sons) que integram as palavras;
  • Saber quais os grafemas (letras) que podem transcrever esses fonemas;
  • Decidir qual a melhor forma de os transcrever, mediante a norma ortográfica.
O papel do Terapeuta da Fala

O Terapeuta da Fala desempenha um papel fundamental na prevenção, avaliação e intervenção com crianças que demonstram dificuldades na aquisição da leitura/escrita.

Existem múltiplas atividades que o Terapeuta da Fala poderá desenvolver com a criança, com os pais, educadores e professores,  que visam o desenvolvimento da consciência fonológica e a obtenção de competências que a preparem para a complexa tarefa de aprender a ler e a escrever!

Autora

Maria João Costeira, Terapeuta da Fala (C-020553188) nas unidades do CMM – Centro Médico de Aveiro e CMM – Centro Clínico FisioEstarreja

Revisão da Literatura

1.Sim-Sim , I., Duarte, I., & Ferraz, M. J. (1997). A língua materna na educação básica. Competências nucleares e níveis de desempenho. Lisboa: Ministério da Educação.
2.Bishop, Snowling, M. J., Thompson, P. A., Greenhalgh, T., Adams, C., Archibald, L., … Whitehouse, A. (2016). CATALISE: A multinational and multidisciplinary Delphi consensus study. Identifying language impairments in children. PLoS ONE, 11(7). https://doi.org/10.1371/journal.pone.0158753
3.Lima, R.( 2009). Fonologia Infantil: Aquisição, Avaliação e Intervenção. Almedina
4.Gillon, G. (2000). The efficacy of phonological awareness intervention for children with spoken language impairment. Language, Speech and Hearing Services in Schools, 31, 126-141.
5.Gillon, G. (2002). Phonological Awareness Intervention for Children: From the Research Laboratory to the Clinic. The ASHA Leader 5. Sim-Sim, I. (2009). O ensino da leitura: a decifração. Lisboa: Ministério da Educação/Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular.
6.Baptista, A., Viana, F. L. & Barbeiro, L (2011). O ensino da escrita: Dimensões gráfica e ortográfica. Lisboa: Ministério da Educação/Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular.

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