Os 5 mandamentos do atleta durante a reabilitação

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Publicado em:
15 Maio, 2020

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Os 5 mandamentos do atleta durante a reabilitação

A lesão é um episódio transversal a quase todos os atletas dos mais variados desportos. Seja por lesões por sobreuso, caracterizadas por um aparecimento e aumento gradual da disfunção podendo levar à perda competitiva, seja por lesões traumáticas que consistem num mecanismo de lesão fácil de identificar, praticamente todos os atletas experienciam a vivência de ter de se ficar ausente da competição durante determinado período de tempo.

Este é um momento difícil de gerir para o atleta – ela irá implicar complicações tanto a curto como a longo-prazo, desde a perda de participação (que pode levar a perdas na situação corrente e na progressão de carreira) até complicados quadros de saúde, quer física quer psicológica, sendo que todos estes fatores irão influenciar – e ser influenciadas por – diversas dinâmicas da vida do atleta, como as componentes social, familiar, cultural, para além da óbvia, a profissional.

O que fazer após uma lesão? A resposta parece intuitiva: procurar uma equipa de medicina desportiva e começar a respetiva reabilitação. Contudo, e conforme discutido aqui, qualquer processo que envolva a modificação de um quadro de saúde implica a participação obrigatória e responsabilização da pessoa cujo processo está no centro: neste caso, o atleta. Para além dela, e formando consigo a equipa a atuar para a melhoria da sua condição, estão os restantes profissionais a providenciar ferramentas para uma melhor tomada de decisão, cada um na sua área de competências.

Assim sendo, e sendo o Fisioterapeuta ou qualquer outro Profissional de Saúde essencialmente um facilitador, que conhece o processo e tem uma expertise de aplicação dos seus conhecimentos no processo de reabilitação, continua a ser fundamental sensibilizar o atleta para a necessidade de adoção de alguns comportamentos ao longo da reabilitação. Estes constituem mandamentos aos quais o atleta deverá obedecer:

  • Não tomarás o tempo como critério de retorno
  • Compreenderás a pertinência do processo
  • Não te desresponsabilizarás
  • Não te deixarás desmotivar
  • Farás perguntas e mostrar-te-ás interessado
Ao cuidado do atleta
1.Não tomarás o tempo como critério de retorno

A grande preocupação associada a uma lesão desportiva é “quando poderei jogar novamente?” – por este motivo, e devido a toda a incerteza associada aos processos de reabilitação, é fundamental que compreendas que a condição para o teu regresso não se prende com a passagem de determinada janela temporal, mas antes com o atingir de determinados critérios que garantam que vais voltar a jogar com o menor risco de recidiva possível, nas melhores condições de competir sem restrições, e render, pelo menos, o que rendias antes da lesão. Isto vai implicar uma alteração do teu mindset, passando a perspetivar a reabilitação não como uma fase que infelizmente vai demorar a passar, mas sim como um momento para te tornares melhor do que estavas antes.

“Faz o que tens a fazer, o tempo vai passar de qualquer das formas.”

2. Compreenderás a pertinência do processo

Neste sentido, e uma vez que há determinados critérios que tens de cumprir para regressar, é fácil depreender que as estratégias que nós, os profissionais, te vamos propor terão de ser pertinentes para os objetivos que tens para atingir. Contudo, não chega serem pertinentes: é absolutamente vital que sejam compreendidas como pertinentes. Por exemplo, determinadas fases do processo pressupõem exercícios onde a expressão volitiva, isto é, a tua intenção nas tarefas, tenha de ser máxima – caso contrário, não estaremos a ter o efeito que pretendemos na sua utilização. Nós profissionais podemos modificar o contexto para otimizar este tipo de reação (como cronometrar determinada tarefa ou utilizar estratégias competitivas), mas primordialmente isto terá de vir de ti próprio – quer a garantia da compreensão do que estás a fazer, quer a consequente resposta.

Se fores um atleta comprometido e, portanto, mais recetivo a compreender o processo, estarás mais próximo do sucesso.

3. Não te desresponsibilizarás

Compromisso é, então, uma palavra-chave. Talvez A palavra-chave.

Se é certo que algumas lesões têm o seu lado fatalista, e naturalmente assim ficam os atletas a que elas ocorrem, a verdade é que muitas podiam, em teoria, ser evitadas (ou, sendo realmente honesto, podiam ter o seu risco diminuído). Contudo, muitas vezes nem nós profissionais refletimos sobre isto, e muito menos o fazem vocês, os atletas.

É da nossa obrigação profissional, técnica e deontológica, alertar-te para este fenómeno. Responsabilizar-te não passa então apenas por garantir que estás compenetrado aquando da sessão connosco; passa, até mais ainda, por garantir que estás comprometido com a adoção de hábitos que vão facilitar em grande parte o processo, como questões relacionadas com a alimentação, sono, abstinência de álcool, hábitos tabágicos, etc – isto vai implicar 90% do teu trabalho connosco. A minha expetativa é que, ao sentires-te responsável, vais estar muito mais motivado porque sabes que desta forma o processo terá mais probabilidades de ser consequência direta do teu esforço, tal como reforçado no ponto 2. Ou seja, quanto mais dedicado fores, maior a probabilidade de sucesso – tudo começa por tomares as rédeas do processo.

4. Não te deixarás desmotivar

De forma a manteres a motivação ao longo do processo, um alerta: não sejas otimista; antes, positivo: isto é, tens de compreender de facto o processo em que estás imiscuído, identificar os pontos em que tens de trabalhar, e manter o foco. Mas também ninguém está sempre motivado; portanto, mais do que te sensibilizar para a motivação, tenho de te alertar para a consistência. É esta que, a médio-prazo, vai permitir que olhes para de onde vieste, onde estás, o que já percorreste e, portanto, o que tens de fazer para continuar. Para isto, provavelmente será boa ideia saberes desde já que nem sempre o processo vai decorrer de forma linear. Noites mal dormidas, stress no clube, stress no trabalho, stress em casa, perda de motivação ocasional, tudo isto se reflete. O meu papel aqui é, em conjunto contigo, ouvir, compreender, refletir e integrar estes dias, quer na prescrição da própria sessão, quer no discurso e abordagem contigo – não esperes que te resolva o problema, mas espera que te ajude, sempre. Vai haver alturas em que estás cansado, em que queres parar, em que precisas de umas férias: cá estarei para te ajudar a perceber se isso é cansaço, desmotivação, ou só preguiça – e seja qual for, perceber contigo o porquê. As férias servem para ser tiradas, se necessário.

5. Farás perguntas e mostrar-te-ás interessado

Tratando-se então de uma equipa na tomada de decisão, não deves esperar que o Profissional de Saúde tome decisões por ti; deves, contudo, esperar de nós informação concreta, fidedigna e honesta (nem que esta informação seja “não sei”). O nosso papel é então colocar a nossa competência ao teu serviço, permitindo-te fazer uma escolha informada. O teu dever aqui é garantir que de facto dispões de toda a informação de que necessitas para dar a tua opinião, na procura da melhor solução para o teu objetivo. E assim, em conjunto, iremos delinear uma linha de ação.

Por isto, é imperativo que exijas ser tratado como atleta mas, até antes disso, ser tratado como uma pessoa cujos direito à decisão e informação está absoluta e totalmente preservado. Isto não é só um direito – é um dever, uma vez que o outcome de todo o processo, de todo o esforço em equipa, depende também dessa tua consciência.

Por tudo isto, na Unidade de Fisioterapia Desportiva e Performance CMM/Peak, não nos comprometemos a resolver os teus problemas; mas prometemos ajudar-te a resolvê-los por ti próprio. Não prometemos fazer de ti melhor atleta; mas prometemos ajudar-te a que tu próprio te tornes melhor atleta. Ser atleta não é só treinar duas vezes por semana; antes, é um estado de espírito, que pressupõe a tua responsabilização, autonomia, emancipação, determinação, motivação e, acima de tudo, consistência. Nós estamos cá só para te ajudar a adquiri-las ou mantê-las, acrescentando-lhes a componente técnica – primeiro, serás um atleta; só depois, serás melhor atleta.

Autor

João Noura Fisioterapeuta (C- 059277076) e Coordenador da Unidade de Fisioterapia Desportiva e Performance no CMM- Aveiro: ERS Nº E124106 | Lic. Func.: 8894/2014 | Tlf: 234021610